sexta-feira, 5 de agosto de 2016

minha loucura legalizada

cada
vez
mais
falo
menos
escrevo
mais
e
mais
quando
o
dia
dorme
ou
quando
a
noite
dorme
tanto
faz
cada
vez
mais
durmo
menos
deixo
o
dia
e
a
noite
dormirem
(mesmo que não deixasse
eles dormiriam!!!)
eles
dormem
enquanto
acordado
fico
dançando
com
a
PALAVRA
não
há
ordem
em
minha
vida
obedeço
somente
a
desordem
do
meu
corpo
nada
de
horários
para
dormir
ou
acordar
durmo
somente
quando
as
pálpebras
morrem
e
acordo
quando
elas
nascem
sabem???
sou
interditado
judicialmente
pedi
à
Justiça Federal
um
atestado
de
invalidez mental
e
ela
me
deu!!!!
uma
juíza
loira
bela
elegante
com
 um
decote
 enlouquecedor
me
entrevistou
esmigalhou
o
martelo
na
mesa
e
perdi
todos
os
meus
DIREITOS CIVIS!!!
que
maravilha!!!
muito
muito pouco
trabalhei
e
nunca
quis
e
agora
mesmo
que
quisesse
me
é
proibido
que
maravilha!!!
sou
vadio
profissional
e
tenho
garantida
uma
pensão
do
governo
após
a
morte
de
meu
pai
(isso se eu não morrer antes)
mas
é
preciso
que
alguém
se
responsabilize
por
mim
não
sou
responsável
por
meus
atos
que
maravilha!!!
quero
ver
encontrar
esse
alguém
mas
isso
é
futuro
e
futuro
é
hipótese
vivo
somente
o
instante
distante
de
tudo
e
muito
próximo
de
todos
apesar
de
ninguém
notar
minha
presença
agasalho
o
mundo
inteiro
com
meus
longos
braços
brancos
e
cada
vez
durmo
menos
disse
adeus
ao
meu
psiquiatra
e
vivo
escrevendo
e
perambulando
à
toa
por
aí
como
bom
insano
que
sou
nada
anônimo!!!
reconhecido
pela
Justiça
de
meu
país!!!
sabem
o
que
mais?
mais
nada!!!
vou
parar
por
aqui
deitar
nu
de
bruços
no
colchão
cada
vez
mais
manchado
de
sangue
acender
um
cigarro
ouvir
Beethoven
apagar
a
lâmpada
e
deixar
a
claridade
da
lua
entrar
pelo
meu
rabo
assim
me
torno
um
iluminado
que
maravilha!!!

os dois

a
garoa
da
manhã
lambia
nossos
cabelos
os
meus
negros
os
dele
brancos
e
sentado
no
banco
de
madeira
eu
fumava
ele
descascava
sementes
de
girassol
e
dizia:
"é complicado"
eu
não dizia
pensava:
"é fácil"
e
incrivelmente
até
diria
finalmente
se
estabelicia
eloquente
harmonia
conversávamos
alegremente
sobre
coisas
que
nos
queimavvam
mas
as
chamas
não
se
tornavavam
melancólicas
cinzas
elas
cresciam
e
miraculosamente
não
mais
queimavam
simplesmente
aqueciam
a
manhã
fria
aqueciam
a
barba
daqueles
dois
homens
tão
próximos
e
tantas
vezes
tão
distantes
e
a
manhã
morria
e
nós
parecíamos
simples
seres
vencendo
distraídos
os
milhões
de
quilômetros
que
realmente
nos
separam
e
almoçamos
tagarelando
e
nos
largamos
no
sofá
vendo
TV
tagarelando
até
o
cansaço
esmagar
nossas
línguas
radiante
sereno
aquecido
esquecido
de
tudo
que
me
atormenta
vim
para
o
quarto
escrever
meu
poema
e
ele
com
seus
admiráveis
cabelos
brancos
permaneceu
deitado
no
sofá
e
acho
que
se
sentia
bem
como um
pintassilgo
cantarolando
e
já
eram
quase
3
e
minha
cabeça
doía
e
ele
me
disse
que
a
dele
estava
sendo
fisgada
nas
têmporas
como
um
peixe
na
boca
do
anzol
e
nada
de
sol
mas
eu
sinto
calor
na
tarde
fria
nesse
momento
em
que
escrevo
e
me
delicio
imaginando
aquele
homem
de
belos
cabelos
brancos
sorrindo
por
dentro
ele
deve
estar
pois
estou
aquele
homem
era
finalmente
meu
pai
num
emocionante
dia
de
agosto
e
recordo
de
seu
rosto
e
escorre
uma
lágrima
no
papel
isso
é
o
que
eu
chamo
de
estar
no
céu
 
 


        em homenagem verdadeira ao jovem anarquista

uma
vida
que
queima
que
machuca
suas
partes
íntimas
que
lhe
faz
lembra
você
EXISTE!!!
e
hoje
quando
incomodei
o
livreiro
anarquista
a
fumar
seu
cigarro
eletrônico
fuçando
no
celular
falando
e
falando
sobre
transformar
o
mundo
pensei
em
escrever
algo
a
respeito
de
nosso
divertido
encontro
logo
ao
cair
da
primeira
chuva
e
acordei
com
as
gotas
batendo
na
janela
e
escrevo
o
poema
dedicado
ao
livreiro
anarquista
o
incomodei
para
tirar
um
sarro
perguntando
se
ele
gostava
dos
punks
perguntando
se
ele
apreciava
a
filosofia
de
Nietsche
perguntando
mil
coisas
e
ele
se
desviou
de
mim
e
foi
falar
com
um
professor
universitário
sobre
a
transformação
do
mundo
antes
disse
à
ele:
"esse tal mundo que você
quer transformar
com ou sem sua presença
se transformará
e sempre será
o mesmo!"
meio
atrapalhado
deu
um
trago
apressado
no
cigarro
eletrônico
e
descobriu
o
tal
professor
confesso
não presto
tudo
que
disse
tinha
somente
o
objetivo
de
incomodá-lo
e
provocar
gargalhadas
em
meus
ossos
feridos
naquela
hora
matinal
e
agora
enquanto
a
chuva
rosna
nessa
noite
apetitosa
penso
no
jovem
anarquista
e
se
sua
vida
o
excita
se
ele
se
interessa
por
uma
vadiagem
bebedeira
putaria
ou
apenas
quer
salvar
todos
esclarecer
para
todos
(que para ele vivem nas trevas
da alienação!!!)
a
urgência
de
transformar
o
mundo
e
retornei
à
casa
e
observei
as
pessoas
caminhando
na
loucura
do
meio-dia
os
cães
sendo
acariciados
por
bando
de
miseráveis
os
escolares
posando
para
uma
foto
e
achei
que
nenhum
daqueles
seres
estaria
a fim
de
conversar
um
segundo
sequer
com
aquele
jovem
anarquista
já
que
não
vivem
no
mesmo
"mundo"
dele
lembro
(agora que a chuva cai de mansinho)
percebi
uma
imensa
solidão
em
seus
olhos
vidrados
no
cigarro
eletrônico
e
por
isso
 fui
incomodá-lo
para
levar
um
pouco
de
companhia
(um tanto furiosa!!!)
àqueles
olhinhos
transformadores
do
mundo
no
fundo
não
é
que
não
presto
é
que
gosto
(às vezes)
de
conduzir
um
prazer
incerto
em
caras
assim
como
eu
confusos
nessa
vida
excitante
e
que
pode
se
tornar
aborrecida
se
você
levá-la
à
sério
e
a
chuva
vira
silêncio
irei
também
me
calar
antes
digo
ao
vento
e
ao
jovem
anarquista:
"tudo bem!!!
faça o que quiser!!!
não condeno ninguém!!!
nem absolvo!!!
não pratico a magistratura!!!
somente
vivo
escrevo
e
grito
após
a
chuva
do
início
de
agosto"

terça-feira, 2 de agosto de 2016

hoje é dia de festa!!!

69
anos
atrás
Maria
nascia
deve
ter
sido
um
belo
bebê
cuspido
das
entranhas
de
Clara
encharcada
de
sangue
chorou
e
cresceu
faceira
comendo
o
pó
das
estradas
de
Canelinha
aos
7
ganhou
uma
fotografia
que
se
perdeu
na
chuva
incessante
de
83
mas
lembro
da
foto
era
criança
fascinante
ficava
admirado
e
pensando
o
que
pensava
aos
7
Maria
no
dia
da
fotografia?
nunca
soube
ela
tampouco
louco
fiquei
ao
vê-la
adoecer
como
um
passarinho
novinho
longe
do
ninho
sob
tempestade
de
fogo
e
dor
ao
vê-la
encolhida
num
pedaço
magro
da
cama
com
suas
pantufas
cor-de-rosa
esfarrapadas
de
tão
velhas
tudo
isso
ardia
em
meus
olhos
vermelhos
e
lembrava
do
esplendoroso
20
de
junho
de
47
percebia
o
mundo
pela
primeira
vez
Maria
lembrava
da
fotografia
que
infância
saborosa
viveu
brincando
de
amarelinha
nas
tardes
alegres
daquela
pequeníssima
cidade
de
Santa
Catarina
agora
ela
já
atravessou
o
pântano
de
céu
cinzento
o
anel
em
chamas
a
janela
festiva
e
lacrimosa
que
separa
a
vida
da
morte
fazem
7
anos
em
31
de
outubro
era
outubro
ou
nada
sobrou
nada
não!!!
sobrou
saudade
sobrou
mais
ela
Maria
que
nada
entendia
de
poesia
de
tanto
ouvir
meus
poemas
fez
um!!!
três
versos
poderosos
derradeira
vitória
cerca
de
2
meses
antes
da
falência
do
seu
corpo
já
abatido
como
passarinho
novinho
assassinado
no
momento
maior
de
seu
abandono
distante
de
tudo
menos
de
minha
mão
que
a
viu
em
seu
último
poético
desesperadamente
desesperado
suspiro
adorável
Maria
feliz
aniversário!!!
saiba
é
noite
lá
fora
chove
é
assim
toda
vez
que
sua
lembrança
invade
minha
carne
o
céu
se
comove

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

renascido

vento
dos
demônios
apagou
chama
destemida
cultivada
na
descida
naquela
ladeira
ensandecida
percorrida
por
corpo
gasto
de
tanta
noite
mal
dormida
os
músculos
gemiam
toda
7
e
meia
da
manhã
quando
embarcava
no
ônibus
amarelo
o
coração
com
patas
de
azulão
cumpriu
missão
de
segunda
à
sexta
com
direito
de
saborear
o
vento
da
insensatez
tudo
se
desfez
com
espancamento
sorrateiro
na
pálpebra
e
24
horas
de
sono
provocaram
tédio
o
domingo
foi
pavoroso
com
os
crocodilos
do
pânico
mordiscando
o
pescoço
e
nada
de
almoço
e
nada
de
sorriso
e
nada
de
música
e
nada
de
poesia
(até chutei o focinho de
minha cadelinha!!!)
havia
decidido
decretar
feriado
perpétuo
havia
banido
todo
fascínio
pela
vida
e
já
pensava
em
comprar
um
rifle
que triste!!!
não
sei
como
tudo
se
modificou
talvez
os
5
maços
de
cigarro
ou
os
4
litros
de
Coca-Cola
realmente
não
sei
algo
surgiu
sacudiu
pernas
mãos
cabelos
e
estava
pronto
para
novo
poema
 nova
canção
e
todo
o
sol
espancou
a
meia-noite
do
domingo
e
escrevi
isso
enquanto
a
lasanha
assava
no
forno
e
antes
de
comê-la
a
fome
já
tinha
passado
também
aquele
estado
de
negação
submergiu
no
oceano
de
delícias
infinitas
e
já
é
segunda
meia-noite
e
10
e
todo
alerta
abraço
todos
em
pensamento
se
todos
são
versos
confusos
hei
de
promovê-los
ao
maravilhoso
marcante
momento
miraculoso
em
que
tudo
entendo
e
a
confusão
desaparece
esse
poema
é
tão
inexplicável
como
a
própria
escalada
até
a
nuvem
escura
da
noite
dessa
segunda
tão
fecunda

solidão ( II )

é
sempre
na
boca
a
frase
presa
o
tigre
me
encurralando
não
deixando
ver
direito
sua
beleza
é
sempre
a
mesma
história
sempre
a
encontro
sozinha
sob
o
frio
dessas
manhãs
de
agosto
ostentando
sua
maquiagem
conversando
com
o
celular
eu
passo
penso
paro
digo
nada
e
saio
encabulado
entre
os
dedos
o
mesmo
cigarro
todos
os
dias
nessas
neblinas
de
agosto
ensaio
uma
frase
e
é
sempre
quase
e
vem
setembro
a
primavera
chega
já
é
outra
sua
maquiagem
mas
é
mesma
a
minha
falta
de
coragem
o
tigre
me
acompanha
até
a
padaria
saio
com
os
pães
e
o
leite
novamente
um
café
da
manhã
solitário
em
cima
da
mesa
o
tigre
deixa
um
poema
que
nada!!!
é
aquela
maldita
frase
presa
na
boca

solidão

à
noite
caminho
sem
pensar
o
luar
se
delicia
na
mesa
do
bar
entro
e
vejo
você
vestida
com
vestido
azul
meias
de
nylon
sapatos
de
salto
alto
brancos
nos
olhos
um
convite
a
noite
é
minha
amiga
mas
não
sei
se
você
é
peço
um
conhaque
acendo
um
Marlboro
no
outro
lado
do
balcão
em
que
você
está
e
pergunto
ao
bêbado
ao
meu
lado
se
sabe
algo
sobre
você
que
está
lá
tão
distante
de
tudo
com
seu
copo
cheio
de
vinho
seu
cigarro
de
filtro
amarelo
manchado
de
batom
vermelho
e
o
bêbado
diz
algo
não
entendo
acendo
outro
Marlboro
vejo
a
garoa
que
brota
na
calçada
e
você
calada
me
olha
quando
não
percebo
quando
retorno
meu
rosto
ao
encontro
do
seu
você
já
não
está
lá
foi
uma
visão
ou
o
que
será?
não
sei
pago
a
conta
esmago
o
tabaco
no
cinzeiro
de
madeira
imunda
e
escrevo
um
poema
de
amor
num
guardanapo
molhado
de
cerveja
sentado
na
banqueta
abandono
o
bar
essa
noite
não
consegui
amar
e
bate
um
vento
leva
o
escrito
para
o
outro
lado
do
balcão
e
ele
cai
em
sua
mão
mas
eu
não
estou
mais
lá