quinta-feira, 7 de abril de 2016

a ressaca

enquanto o rugido da fera 
não surgir
não faço
mas   agora novamemte
4 da manhã
sinto o tigre avançar
com dentes malignos
em direção à garganta cheia de sede
e com sede
visito esse lago
onde seu reflexo atinge a face
onde as garças estão paradas
e as rãs saltam excitadas
me recordam manhãs...
antigas manhãs de pura ressaca
aquele gosto de vermes mortos na boca
a cabeça latejando furiosa
os olhos amarelados enxergando pontos luminosos
azuis   vermelhos   verdes
primeiro checar os bolsos
para descobrir se alguma puta
roubou a carteira
naquele tempo carteira de couro de boi
sempre gostei de bois
principalmente dos bifes
bois gordos em gordas fatias
depois
a procura pelo cigarro
quando achava pelo menos um
era uma mordida feliz na nicotina
caso contrário
trabalho
catar centavos
descer escadas
a cabeça girava
pior se no meio do caminho até o bar
um jarro de vômito surgia
os pedestres se afastavam cheios de náusea
e asco em relação a minha pessoa
no fundo gostava de espantar todos
e trôpego cavalgar livre o meu trajeto
mas preferia   claro
encontrar o cigarro em casa
dar belas baforadas logo que acordava
mansões de fumaça escorrendo pela janela
se sentisse o vômito chgegando
ia delicadamente abraçar o vaso
não era legal quando desmoronava na pia
aquela lagoa podre ficava lá
parada   me olhando
tinha que desentupir a maldita pia
com a mão
mas sempre deixava isso para depois
ficava aquele odor fétido
dançando pelo apartamento
o melhor remédio
( e isso é apenas uma indicação )
para curar uma ressacaj
é fumar um longo baseado de uma maconha bem gostosa
você viaja
(o que é bom)
vem a fome
(o que é melhor)
(outra indicação)
suco de bonita fruta mais pão com gordurosa manteiga
e gorduroso queijo pálido e derretido
pode abrir uma cerveja
sorrir para a sedutora manhã
seja aguada ou fervente
você já estará bem
pode começar a tentar lembrar
do que aconteceu na noite anterior e morta
(outra indicação)
verifique o estado do seu pau
já vai descobrir se ele andou se metendo em algum lugar 
você sabe onde ele gosta de se meter
se for mulher
faça o mesmo
inspecione sua buceta
não preciso dizer onde ela gosta de se enfiar
acho que já basta 
isso não é um guia para embriagados ou embriagadas
é apenas um poema
sobre
lembranças
de um
bêbado
    
poema sobre o poema

somente quando escrevo
me vejo
encontro não exatamente
o que quero
encontro uma tormenta
águas azuis como a chama
de um fogão à gás
me invadem
me rasgam
aguas azuis parecidas
com moscas azuis
circulam
vagam
quando escrevo
estas águas azuis
lavam meu corpo coberto de pus e sangue
afastam a amargura da perda
e do pó calcificado nas entranhas
arranham como um gato malvado
a face atormentada
surge o poeta
morre o homem
sou outro
não mais aquele andarilho
das ruas sem sentido
exibo uma careta no espelho
acendo um cigarro
e sigo em frente
verso após verso
despejando na página
palavras que gostaria de ter lido
como não as achei em livro algum
solto catarros poéticos
meus
esses catarros são meus e de mais ninguém
pois a tormenta de que falava
faz as cortinas colossais se erguerem
morre a falsidade do discurso cotidiano
surge a poesia como um cavalo selvagem
negro   bruto
pisoteando valente o chão da existência
a força das patas desse cavalo enlouquecido
espanca o drama
que é a vida bestial
diante de um campo repleto de flores doentes
ao escrever
as águas azuis
penetram pela
boca   nariz   ouvidos
todos os orifícios do corpo lacrimoso
até o rabo ocioso
enchendo de luz
aquela vasta escuridão vadia
que como persianas fechavam
o homem no quarto
apenas acompanhado
do cinzeiro imundo
tapete   poeira
ventilador morto
som paralítico
lustre raquítico
violão sem cordas
ao escrever
ele acorda
brinca   sorri   canta   dança
embriagado de noite preta
é orgia
palavras parindo palavras
alegria
ao derramar essas gotas que são detritos
em correria
partem os conflitos
é como um padre se afundando no pântano da putaria
ele renasce
como renascem os dias
como em toda tarde febril após manhã molhada
voltam os galos
a estrangular minhocas 

terça-feira, 5 de abril de 2016

tempos de estudante

idos de 94
tecidos 18 quase 19 anos de existência
ciência da engenharia não me seduzia
por ironia a fazia
em minha cidade natal
Joinville
ao vale do perpétuo Iguaçu cheguei aos seis meses de idade
um belo bebê
segundo as fotografias
de sorriso largo
de choro pungente
me diga minha gente
se não fui uma criança feliz?
me diga minha gente
por que em 94 corria
louco de embriaguez por uma meretriz?
naquela cidade sem dentes
a escorrer espuma pelos cantos da boca
naquela cidade
apática e demente?
não havia meninas naquele maldito curso
as poucas que haviam eram estudiosas
( acadêmicas entorpecidas de física e matemáticas)
nós
(acadêmicos entorpecidos de fome e tédio)
nos cercados de substâncias do infinito
álcool   tabaco   maconha  cocaína
e nenhuma menina de Joinville nos dava a mínima chance
é certo que em minha república
surgiram
além da sujeira no chão e nas cortinas
umas putas
umas empregadas domésticas
que não faziam nada
mas nos davam seus rabos
a rebolar por entre a lama que habitava aquelas paredes risonhas
desta maneira
quando nos dirigíamos
ao antro daquela nefasta cidade
procurávamos alguma briga
uma boa briga
com aqueles joinvillenses
nós  em número menor
sem medo
os deixávamos amedrontados
os espancávamos
e também apanhávamos
mas vencíamos devido a nossa loucura
a insanidade conta alto em um combate
a cidade de Joinville era como
um touro a ser abatido
uma cerveja a ser engolida
uma barata a ser surrada
uma torre de fumaça a ser tragada
depois   nos cantos das esquinas
mais escuras que a escuridão morna daquelas noites úmidas
bêbados    chapados   sangrando
mas imaculados
como anjos após uma guerra no topo do céu
comprávamos os corpos das prostituas
mais baratas
entrávamos em corredores
no interior da selva negra
e recebíamos felizes
belas chupadas
em nossos paus exaustos
raiava o dia
e as cadelas se viravam
rebolavam suas bucetas gastas
e nós metíamos
com nossa força angelical
uma cópula abençoada
um urro em direção ao céu que se abria
um gozo vindo do inferno de nossas almas
(se é que tínhamos alma!!!)
enfim a paga
por quem peca
o pecado
por quem paga
nada disso nos importava
apertava-se mais um baseado
e a passos lentos
junto com a cantiga dos pássaros
votávamos para nossa 
aconchegante
deprimente
casa 
assim era antigamente...
fúria

dias difíceis
contemplo o que fiz
em meu braço com a gillete
deixei cicatriz
releio os romances
de Machado de Assis
treino algumas notas
em meu tímido violão
já são quase 2 da manhã
e amanhã promete
ser mais um dia quente
na minha já quente cabeça
em meio a tudo isso
dedico aos meus ouvidos
o som furioso da banda punk Nirvana
comprei um livro sobre
a história do movimento punk
gravei várias músicas
de várias bandas punk
escrevi um poema 
sobre os poetas e os punks
ainda espero o fim da timidez do meu violão
ainda esse mês quero tocar hinos punks
e numa fúria
convulsiva
espermicida
inseticida
homicida
suicida
vou arrancar esta depressão
que me entristece
que tece minha jornada fúnebre
que permanece
triturando meus ossos
provocando destroços
em volta das minhas
já cansadas asas
pois sou uma tentativa desesperada de poeta
e nesta estrada não caminho
sou alado
vislumbro do alto
o cadafalso
em que as pessoas estão mergulhadas
eu    nada
sou tudo
uma espécie de absurdo
a flutuar sobre os telhados da cidade
como uma folha seca   vagando
solitária   por entre as casas
a depressão
o punk
a cicatriz
Machado de Assis
o calor de fevereiro
a fúria
me move por inteiro
me faz voltar ao belo voo
que autêntico artista escreve
como a neve
pintando de branco
o que antes era 
escuridão
eu e o psiquiatra

estou deprimido
desde o início do ano
engulo comprimidos
recomendas pelo meu psiquiatra
Rogério
disse a ele:
"sou estranho
arranho
as paredes com minhas unhas
até ver sangue
depois as lavo
enxugo
bebo chá
e não faço mais nada
ele diz:
não há problema
sou formado na USP
tenho solução para tudo
você tem transtorno bi-polar
eu digo:
o que eu tenho é falta de um lugar
para ficar em paz
sem pensar no assassinato doentio de minha mãe
na ausência onipresente de minha irmã
no tipo mais estranho que eu
que é meu pai
na ausência calculada de meus amigos de longa data
mas estou me acostumando a ser solitário
ler e consultar as paginas podres do dicionário
escrever poema e pensar em
Bukowski
(um grande poeta solitário)
além da deliciosa companhia do meu tabaco
mostrando a minha ociosa mente
nem tudo está perdido
sigo
minha reta defeituosa
mastigo com minha visão
a desastrosa
vida de meus vizinhos
e ainda sinto tesão quando crio poemas eróticos
imagino fêmeas  castas
enormes putas
me masturbo demoradamente
gozo
depois tomo banho
conto o número de azulejos amarelos do banheiro
sei lá mais o que faço"
o doutor diz:
está ótimo
o tamanho do seu berro é 
o tamanho de sua doença
mantenha a crença 
que vou lhe ajudar
eu digo:
claro   pago 200 reais a consulta
bem   quem paga é meu pai
ele diz:
1200 mg de carbonato de lítio
1500 mg de ácido valpróico
60 mg de dalmadorm
30 gotas de rivotril 2,5 mg/ml
e você irá se estabilizar em dois ou três meses
ele disse isso dia 18 de dezembro
hoje é 13 de janeiro
minha cabeça flutua
há noites em que não vejo os lábios da lua
também   Bernardes
você queria o que?
pensou que ia ser fácil?
você deixou de ser dócil há muito tempo!
você é ressentido e agressivo!
está na hora de fazer uma auto-crítica!
ou pensou que ser poeta lhe traria descanso
o seu canto
não é tão
afinado
assim
arte e filosofia

quero fazer
um poema grande
imenso
intenso
descontrolado
desconcertante
gritante
singelo
cretino
um desatino
um colapso
 lapso
festivo
alegre
incrível
farto de
palavras gordas
palavras barrigudas
agudas
nada cisudas
tudo brilhante
tudo audacioso
nada ocioso
um poema
terrível
assustando
bocas pequenas
lábios magros
bochechas flácidas
olhos cinzentos
um poema que
como lente de aumento
esquente o sol
na pele da formiga
vermelha e operária
o pior dos operários é melhor
que a melhor formiga
porque somos livres
temos escolha
escondida na sacola velha
carcomida por anos de labuta
nem a aranha mais astuta
esculpe uma teia melhor
que a armadilha da mais ingênua puta
por isso
devido à liberdade
posso fazer um poema
grande
inquieto
indecente
descrente
incorreto
um tormento
um terremoto
um vulcão (em erupção)
um miado de gata no cio
no ato da festiva cópula
um poema
intrépido
insolente
displicente
nada sério
todo sorriso 
um aviso
de que nem sempre
a filosofia tem razão
uma liberdade
rabiscada no chão da tarde
um arte sem a consequente angústia
imanente a toda ação 
libertária
o sol racha minhas costas e minha poesia não é
solitária
menor dos erros

já me disseram
muitas vezes
tantas vezes
já sei de cor
me disseram
você foi o pior
mas eu digo:
"dos males fui o menor"
me disseram
você foi o pior
dos filhos
dos irmãos
dos alunos
dos atletas
(futebolistas   basqueteiros   karatecas)
você foi o pior
dos namorados
dos amantes
dos maridos
dos intelectuais
dos poetas
mas eu digo
aqui do meu abrigo
escuro e brilhante
ao mesmo tempo
(vai brilhar até que a última das 
estrelas se embriague de escuridão)
eu digo:
"hoje assisti novamente
após 25 anos
o filme norte-americano
Cantando na Chuva
percebi
não sou tão demoníaco assim
pois derramei lágrimas
ferventes ao fim do espetáculo
pensei 
no amor
no sabor
dos abraços
 de minha irmã
de minha mãe
já falecida
em sua cova nas masmorras
de São Pedro
na cor
dos olhos de minha amante favorita
também já falecida
pensei
parado em frente à TV
como um pardal tristonho em cima de um fio de luz
  mirando o vazio sob uma fria garoa de maio
pensei em todos os meus fracassos
como aluno desde o primário
até o nível universitário
pensei em todas as derrotas como atleta
devido a minha eterna fragilidade
pensei   enfim
em todos que me apontam o dedo
girando-o ao meu redor
não fui dos piores o pior
sou
sim
poeta
intelectual
anormal
neste momento intenso
da minha testa
escorre suor
o que comprova
dos males fui o menor