quinta-feira, 3 de novembro de 2016

em qual residência mora meu interesse?

lupinos
vadios
e
felinos
entediados
me
interessam
uma
fileira
de
sorvetes
 cor-de-rosa 
derretendo
sob
o
sol
do
verão
me
interessa
um
casal
de
idosos
em
seu
galope
dormente
cavalgando
na
calçada
escura
de
uma
tarde
brilhante
me
interessa
uma
jovem
aprendiz
pilotando
lentamente
um
carro
da
 auto-escola
ouvindo
buzinas
 irritadas
e
gargalhadas
debochadas
me
interessa
uma
agradável
vendedora
roendo
as
unhas
na
eterna
espera
de
um
cliente
  mal-humorado
me
interessa
um
garoto
enlouquecido
vagando
atrapalhado
mirando
o
vazio
e
esbarrando
em
todos
me
interessa
um
estudante
do
curso
de
letras
discursando
sobre
a
importância
da
leitura
não
me
interessa
uma
estudante
do
curso
de
sociologia
discursando
sobre
a
importância
de
valorizarmos
a
sagrada
democracia
não
me
interessa
alguém
incomodado
com
a
minha
postura
diante
da
vida
me
insultando
arremessando
pedaços
de
saliva
em
meu
rosto
agredindo
através
de
suas
trêmulas
palavras
minha
orelhinha
triste
me
empurrando
com
seus
braços
fortes
moldados
através
de
horas
e
horas
em
alguma
academia
espancando
meu
peito
alegre
com
seus
punhos
tão
ressentidos
tão
cheios
de
culpa
e
ódio
até
que
caio
no
solo
morno
e
esse
alguém
me
chuta
  incessantemente
ferindo
minhas
costelas
inquietas
esse
alguém
me
interessa
de
uma
maneira
muito
maior
do
que
aqueles
que
passam
por
mim
e
apertam
minha
mão
dolorida
e
dizem
que
eu
sou
O
 CARA
ou
aqueles
que
passam
por
mim
indiferentes
atingindo
com
seu
olhar
acinzentado
meus
olhos
 coloridos
o
que
me
interessa
ninguém
compreende
e
eu
também
não

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

uma escrita açucarada escapa dos dedos amargos

há
uma
regra
não
ditada
por
ninguém
e
ao
mesmo
tempo
ditada
por
todos
e
sangra
o
gargalo
da
garrafa
no
bar
do
Jonas
e
a
rolha
da
garrafa
de
champagne
está
deitada
no
quarto
e
VOCÊ
que
me
lê
onde
  está? 
por
acaso
segura
alguma
garrafa
entorpecida
verde
babando
de
desejo
vontade
coisas
assim
  sabe?
VOCÊ
está
lendo
enquanto
mastiga
um
Elma Chipps
bebe
uma
cafeinada
Coca-Cola
ou
está
lendo
enquanto
o
intervalo
comercial
de
sua
TV
não
termina
ou
está
lendo
desatento
pensano
em
coisas
doces
como
o
céu
brilhante
os
cisnes
no
antigo
lago
dormindo
após
o
almoço
um
beijo
de
namorada
juvenil
um
primeiro
lugar
em
alguma
competição
coisas
doces
como
as
pernas
cruzadas
de
uma
modelo
de
longas
pernas
coisas
doces
como
esse
poema
que
obedece
de
maneira
desobediente
aquela
regra
obscura
como
esse
poema
esquizofrênico
em
seu
apaixonado
nascimento
como
esse
poema
entregue
a
VOCÊ
que
não
sei
onde
está
e
também
não
sei
onde
estava
sua
cabeça
quando
resolveu
ler
isso

terça-feira, 1 de novembro de 2016

estrangeiros cercados por montanhas estranhas

das
entranhas
do
Iguaçu
nasceram
duas
meninas
nem
os
trilhos
da
ferrovia
impediram
o
florescer
dos
seus
corpos
tão
femininos
tão
sensuais
em
sua
preciosa
extensão
mesmo
afundados
num
pântano
repleto
dos
sapos
menos
discretos
do
mundo
e
o
pântano
lamacento
foi
cantado
em
prosa
e
verso
pelas
bocas
mais
dementes
do
mundo
e
o
pântano
se
tornou
sólido
pois
o
passo
pesado
de
nossos
antepassados
amassou
a
lama
com
pés
descalços
até
o
solo
amolecido
criar
músculos
de
fera
indomada
e
mesmo
os
trilhos
que
separaram
as
meninas
não
convenceram
aqueles
que
não
reconheceram
fronteiras
a
sangrar
terra
com
fuzis
e
bombas
essa
artilharia
vã
decapitou
os
profetas
que
aqui
viviam
mas
dela
surgiram
outros
videntes
armados
com
mãos
entorpecidas
de
carinho
e
fúria
HOJE
99
anos
depois
 da
bandeira
branca
ser
erguida
vejo
nosso
povo
endiabrado
e
santo
atropelando
delicadamente
os
rabiscos
que
estupraram
esse
chão
pouco
importa
a
eles
se
os
consideram
paranaenses
ou
catarinenses
eles
banharam
as
meninas
no
rio
e
tatuaram
em
suas
faces
o
verdadeiro
nome
desse
vale
GÊMEAS DO IGUAÇU
pertencemos
ao
vento
que
sacode
nossos
cabelos
quem
pertence
a
esse
ondulante
movimento
não
aceita
o
rótulo
ofertado
somos
únicos
e
há
ainda
inúmeras
bocas
a
cantar
a
doçura
e
o
amargor
exclusivo
que
reside
nas
coxas
morenas
de
nossas
meninas
 
uma quadra



A   PARTE
QUE   ME   PARTE
FAZ   PARTE
DO   MEU   SHOW 











crepúsculo com a moçada do século XXI

e
ela
vestida
de
jeans
primavera
disse:
"você leu aquilo?"
e
o
cara
jovial
com
a
barba
por
fazer
escondido
por
trás
dos
óculos
enegrecidos
disse:
"não foi bem assim
é
que eu comprei
para minha mãe
e
acabei lendo"
enquanto
isso
a
visão
do
velho
sentado
na
grama
petrificava
o
corpo
primaveril
da
jovem
de
cabelos
pintados
toda
tímida
toda
colorida
toda
circular
toda
vestida
de
raios
solares
púrpuros
belos
raios
adormecendo
em
pele
dourada
enquanto
isso
o
velho
no
seu
disfarce
e
ao
mesmo
tempo
na
sua
verdade
de
provar
o
fogo
daquela
língua
grossa
cheia
de
saliva
e
bactéria
do
inverno
passado
a
batucar
na
boca
em
que
suas
palavras
estão
soterradas
enquanto
isso
o
velho
retirava
do
mar
de
terra
em
que
estava
a
pedra
marrom
pedra
paciente
A
PEDRA
no
lugar
em
suas
raízes
dormiam
no
lugar
da
PEDRA
nem
triste
nem
feliz
uma
vida
de
meretriz
alegre
por
não
ter
clientes
e
um
carro
com
família
pálida
à
bordo
dilacera
a
rua
ignorando
a
sanguinolenta
hora
fatal
e
o
velho
no
lugar
da
PEDRA
coloca
a
fúnebre
bagana
e
a
deixa
na
escuridão
embaixo
da
PEDRA
longeva
pedra
dormente
 pedra
a
PEDRA
e
o
velho
são
cúmplices
do
crime
e
não
há
punição
pois
nem
a
jovem
primaveril
nem
o
cara
dos
óculos
perceberam
o
gesto
ousado
do
velho
muito
usado
e
tudo
continuou
a
eterna
conversa
sobre
a
eterna
falta
do
que
falar


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

o que fazer enquanto se espera um presente do Diabo?

o
Iguaçu
dorme
em
seu
leito
sombrio
enquanto
escrevo
embaixo
da
ponte
ao
meu
redor
homens
imundos
lindos
encharcados
de
alegria
após
uma
cópula
festiva
com
uma
bela
puta
que
descansa
de
pernas
abertas
no
gramado
esfarrapado
ela
olha
ora
para
a
garrafa
de
aguardente
ora
para
o
céu
em
seu
negrume
insatisfeito
rosnando
em
forma
de
trovão
e
luz
se
esparrama
no
rosto
de
todos
deve
ser
raio
desabando
nessa
Terra
que
meus
pés
descalços
acariciam
com
extrema
fúria
e
a
puta
com
seu
corpo
ocioso
esculpe
no
solo
seu
delicioso
contorno
e
eu
aguardo
minha
tranquila
vez
de
açoitá-la
com
meu
membro
que
já
está
espumando
quase
rasgando
a
bermuda
antiga
é
que
a
puta
me
pediu
com
toda
suavidade
um
intervalo
disse
que
sua
buceta
esta
doída
por
isso
ela
deitou
nua
oferecendo
seu
órgão
sexual
à
brisa
que
espanca
a
face
da
noite
ela
olha
para
mim
agora
e
entre
a
garrafa
e
o
céu
exibe
um
convite
através
dos
seus
grossos
lábios
róseos
um
convite
tão
sedutor
que
os
homens
barbudos
cessam
sua
tagarelice
e
observam
eu
cancelar
essa
escrita
e
conduzir
minha
pele
gasta
sobre
os
ossos
mais
do
que
usados
da
soberba
puta
largada
às
margens
do
Iguaçu
dorminhoco
 



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

a fatalidade ronda a tarde

o
velho
com
seus
pequenos
olhos
repletos
de
umidade
mágoa
e
terror
suplica
ao
filho
por
ajuda
gritante
que
extermine
a
dor
que
lhe
estrangula
o
filho
literalmente
corre
mesmo
não
sabendo
para
aonde
penetra
ruelas
doentes
mergulha
os
pés
em
poças
de
lama
pergunta
à
cachorrada
preguiçosa
estacionada
nas
esquinas
se
eles
podem
indicar
alguém
que
possa
solucionar
a
questão
tudo
em
vão
o
filho
aos
tropeços
retorna
mergulha
novamente
seus
pés
agora
exaustos
nas
mesmas
poças
de
lama
retorna
pelas
mesmas
ruelas
sombrias
de
uma
tarde
na
qual
ele
passa
a
língua
e
sente
o
gosto
nervoso
da
MORTE
o
filho
retorna
e
vê
novamente
os
mesmos
cachorros
preguiçosos
que
novamente
nada
respondem
apenas
latem
contentes
já
que
mesmo
que
estivessem
sofrendo
não
saberiam
que
estão
ah!
se
o
filho
fosse
um
cachorro
não
sentiria
o
sangue
congelar
nas
veias
no
instante
que
encarar
os
pequenos
olhos
entristecidos
do
velho
pois
andou
quilômetros
na
captura
de
uma
resposta
mas
retorna
de
mãos
vazias
e
cheias
de
MEDO