segunda-feira, 17 de outubro de 2016

acho que não foi bom para ela

                                                                       
lembro
muito
bem
aquela
virgem
tão
branca
tão
protestante
tão
elegante
dez
infinitos
meses
até
aquela
noite
no
litoral
catarinense
tudo
escuro
no
quartinho
da
grandiosa
casa
de
madeira
mas
havia
fogo
nos
corpos
a
ponto
de
clarear
a
mais
negra
das
trevas
mesmo
assim
difícil
achar
o
caminho
entre
o
matagal
castanho
entre
as
moscas
do
verão
e
não
houve
entendimento
no
primeiro
ato
a
noite
desabou
escorreu
do
teto
borrou
cortinas
adormeceu
no
chão
e
saí
do
quartinho
enfurecido
abri
a
geladeira
senti
seu
vento
silencioso
afagar
a
pele
suada
e
ela
surgiu
nua
nervosa
pálida
discutimos
trocamos
tapas
aquela
virgem
era
garota
raivosa
nos
seus
20
anos
lacrados
não
me
intimidei
agarrei
sua
mão
e
a
conduzi
com
violência
novamente
ao
quartinho
das
paredes
em
chamas
arremessei
toda
sua
magnífica
carne
na
cama
ela
caiu
assutada
agora
via
tudo
a
lâmpada
fervia
sobre
nós
vi
o
medo
estampado
em
suas
pupilas
delicadas
vi
os
bicos
róseos
de
seus
seios
empinados
vi
sua
boca
entreaberta
deixando
escapar
sedutora
língua
mais
do
que
vermelha
eu
disse:
"abra as pernas e sangre"
eu
estava
de
pé
com
o
pau
mirando
a
lua
e
ela
obedeceu 
minha
ordem
abrindo
as
pernas
de
um
metro
deixando
exposta
aquela
buceta
(uma das mais belas que já vi!!!)
e
deitei
meu
peso
sobre
ela
senti
queimaduras
no
rosto
quando
a
invadi
triunfante
como
um
soldado
romano
enfiando
uma
espada
no
coração
bárbaro
de
Átila
e
no
mesmo
glorioso
instante
senti
o
sangue
da
virgem
abraçar
o
pau
e
sorri
alegre
olhando
para
a
parede
poucos
golpes
depois
gozei
no
fundo
daquele
rio
de
delícias
ela
gritou
durante
todo
o
movimento
e
saltei
longe
de
suas
ancas
colocando
a
cabeça
na
brisa
na
noturna
e
apenas
ouvi:
"porra!!!
você gozou dentro!!!
e se eu engravidar?"
quieto
olhei
para
seus
olhos
castanhos
para
o
sangue
a
escorrer
lento
de
sua
buceta
manchando
o
lençol
azul
e
abandonei
o
quartinho
com
passos
suaves
lembro
muito
bem
sentia
por
ela
enorme
desprezo
e
sabia
que
no
início
gostava
dela
com
a
força
da
paixão
adolescente
mas
naquele
momento
tudo
se
quebrou
e
dançou
diante
do
meu
esqueleto
girei
o
pescoço
ela
permanecia
deitada
em
transe
na
solidão
da
lâmpada
acesa
enquanto
eu
me
dirigia
à
solidão
da
rua

                                                                                  
anotação de um velho bêbado

bar
da
Lia
tudo
antigo
como
a
morte
nossa
de
cada
dia
antigas
amizades
tão
jovens
quanto
nossa
nostalgia
ao
mastigar
o
velho
tabaco
ao
comentar
os
sonhos
entregues
nas
mãos
de
nossos
rivais
dormindo
com
eles
num
apertado
abraço
enquanto
vivemos
o
pesadelo
comprado
a
alto
preço
antigas
são
as
garrafas
da
cerveja
vadia
a
se
esvair
por
seus
gargalos
escuros
e
invadir
nossas
gargantas
desafinadas
de
tanto
cantar
canções
que
ninguém
mais
escuta
antigas
são
as
paredes
do
bar
da
Lia
permanecem
na
sua
velha
paralisia
mas
há
alegria
no
interior
delas
ao
ver
a
nata
da
antiga
rapaziada
deixando
suas
gotas
de
delírio
em
potes
que
nunca
TRANSBORDAM


uma nova versão da velha novela

a
PEC
241
entristeceu
as
pupilas
antes
despreocupadas
dos
estudantes
universitários
aqui
do
vale
e
agora
é
OUTUBRO OU NADA
a
revolta
se
alastrou
pelos
corpos
jovens
como
fogo
num
oceano
de
folhas
secas
eles
ocuparam
enraivecidos
o
campus
e
ninguém
mais
entra
ninguém
mais
sai
eles
fixaram
cartazes
que
vomitam
sua
insatisfação
na
face
dos
curiosos
cidadãos
que
passam
e
pelo
que
percebo
o
povo
arregala
os
olhos
obedientes
franze
as
sobrancelhas
  obedientes
e
desaparece
boquiaberto
diante
das
palavras
escritas
com
evidente
angústia
essas
palavras
parecem
presas
ali
e
parecem
envergonhadas
por
ali
estar
essas
palavras
dizem
coisas
assim:
"ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição"
"lutar é também educar"
e
rompi
o
cerco
formados
pelas
barricadas
do
ódio
e
vi
os
universitários
em
amorosa
conversa
em
divertida
baderna
cantarolando
hinos
de
protesto
com
suas
camisetas
decoradas
com
fotografias
de
Che Guevara
Karl Marx
e
nos
pulsos
e
tornozelos
fitas
de
Nossa Senhora Aparecida
fitas
com
as
cores
da
bandeira
da
Jamaica
e
vaguei
entre
eles
com
meu
andar
vadio
e
logo
fui
chamado
de
alienado
pois
conheciam
meus
poemas
e
fui
expulso
através
de
um
furioso
convite
cheguei
ao
bar
incrivelmente
ileso
embora
tenha
percebido
arranhões
na
pele
exausta
e
o
sol
das
2
assava
meu
rabo
que
aos
poucos
se
refrescava
já
que
a
cerveja
deslizava
nas
veias
também
exaustas
e
escutei
pelo
rádio
o
chefe
da
Casa Civil
enraivecido
diante
da
ocupação
do
campus
sua
raiva
atravessava
os
alto-falantes
e
morria
solitária
no
assoalho
sujo
já
que
o
povo
ali
presente
em
sua
dormência
escondida
atrás
dos
copos
também
desaparecia
diante
daquelas
palavras
esvoaçantes
e
decadentes
a
atenção
destes
bêbados
e
daqueles
cidadãos
está
dirigida
para
outro
mundo
não
sei
qual
mas
não
é
nem
dos
governantes
opressores
nem
dos
alunos
oprimidos
talvez
esteja
dirigida
para
o
mesmo
local
que
a
minha
dirigida
para
o
VAZIO
que
nos
PREENCHE
talvez
apenas
talvez
 

sábado, 15 de outubro de 2016

saudade do descanso

preguiçoso
sempre
no
anoitecer
na
alvorada
às
três da manhã
em cima
de
uma
fêmea
embaixo
da
cama
na
sessão
da
tarde
na
sessão
de
gala
no
domingo
maior
preguiçoso
sempre
preguiçoso
escrevendo
poemas
e
bocejando
ao
engolir
a
fumaça
do
tabaco
e
espantando
pernilongos
entre
um
verso
e
outro
e
lembrando
das
pernas
moças
de
alguma
puta
que
conheci
no
tapete
de
algum
apartamento
tedioso
e
sacudindo
a
dor
nas
costas
com
movimentos
de
contorcionista
desengonçado
ou
preguiçoso
diante
de
tanta
preguiça
a
sangrar
a
carne
no
embalo
da
rede
num
dia
de
verão
mergulhado
num
copo
d'água
ou
preguiçoso
por
estar
nesse
mundo
em
que
se
precisa
fazer
algo
o
tempo
inteiro
de
janeiro
a
janeiro
e
mesmo
em
fevereiro
o
carnaval
nada
mais
é
que
outro
fazer
outra
ordem
a
ser
cumprida
vadiagem
com
data
de
início
e
validade
meu
próprio
sossego
é
tarefa
árdua
que
fadiga
o
corpo
alimenta
a
traça
que
vasculha
as
entranhas
curiosa
no
seu
roer
incessante
me
transforma
na
ruína
que
sou
um
preguiçoso
atarefado
em
seu
cotidiano
de
perambular
por
aí
já
que
não
consegue
acalmar
a
preguiça
amarga
que
não
traz
sossego
ao
café
que
bebe
nunca
foi
doce
esse
café
mas
agora
me
parece
uma
dose
de
desassossego
sonoro
nesse
enraivecido
mundo
em
que
vivo
sempre
com
uma
preguiça
digna
de
uma
prostituta
após
sua
noite
de
trabalho
contemplando
 o
vadio
nascer
do
sol
com
a
boca
lambuzada
de
esperma
e
batom
além
de
um
sorriso
bobo
estampado
no
rosto
assim
me
sinto
gasto
pelo
tempo
usado
pela
multidão
e
com
uma
gigantesca
vontade
de
NADA

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

um acontecimento

isolado
no
lado
escuro
da
vida
apesar
do
sol
fazer
moradia
na
cabeça
vazia
e
eu
não
acontecia
até
que
vi
uma
moça
obesa
 em cima 
de
uma
motocicleta
esquálida
tentando
e
tentando
estacioná-la
numa
minúscula
vaga
entre
outras
motocicletas
estas
gordas
subitamente
a
moça
obesa
desaba
para
um
lado
beijando
o
asfalto
quente
com
seu
imenso
corpo
e
emitiu
gemido
alto
e
corri
desajeitado
ao
seu
encontro
oferecendo
ajuda
mas
ela
enfurecida
recusou
disse
que
sua
existência
era
uma
MERDA
e
que
pretendia
ficar
ali
derretendo
sob
o
sol
da
primavera
contemplando
sua
magra
motocicleta
que
também
era
uma
MERDA
e
agonizava
ao
seu
lado
ofereci
então
um
cigarro
ela
disse
que
não
fumava
mas
aceitou
e
sorriu
mostrando
a
tristeza
de
seus
dentes
perguntei
se
podia
sentar
ela
respondeu
que
sim
desde
que
ficasse
em
silêncio
e
assim
ficamos
por
uma
meia hora
num
pacto
calado
de
solidariedade
sendo
assados
pelo
sol
atrevido
sendo
alvo
dos
olhares
curiosos
dos
pedestres
apressados
em
sua
nervosa
calmaria
a
viatura
com
suas
luzes
vermelhas
se
aproximava
percebemos
o
incômodo
chegando
a
passos
largos
ela
se
levantou
toda
torta
e
agarrou
sua
motocicleta
esfarrapada
eu
fiquei
assistindo
sua
veloz
escapada
e
os
agentes
da
lei
passaram
por
mim
com
suas
expressões
de
ódio
os
fuzilei
com
minha
expressão
de
isolamento
eles
se
dirigiram
para
o
horizonte
da
avenida
ensolarada
acendi
outro
cigarro
conclui
que
a
moça
obesa
é
uma
fêmea
muito
interessante
em
sua
insatisfação
indiscreta
em
sua
carne
gordurosa
enfim
abandonei
o
local
invadi
a
praça
e
na
sombra
de
uma
árvore
sofredora
senti
saudade
daquela
moça
obesa
que
pouco
falou
apenas
fumou
com
um
estilo
digno
da
mais
alta
nobreza
francesa
do
século
XVIII
que
como
ela
estava
afundada
na
MERDA
sou o alvo

olhem!!!
um
lelé da cuca
um
bicho grilo
um
andarilho
um
hipie
um
maluco beleza
um
maltrapilho
um
vagabundo
um
marginal
um
coitado
ouço
isso
quando
rasgo
a
multidão
ao
meio
depois
anoto
enquanto
a
náusea
invade
o
corpo
e
o
sorriso
invade
a
face
daqueles
que
falam
ao
perceber
os
bolsos
cheios
de
dinheiro
e
sangue
permaneço
calado
anotando
 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

certa Dona   certo velho   certo Deus

a
Dona Morte
com
suas
botas
de
vaqueira
e
sua
jaqueta
de
couro
de
jacaré
espreita
a
casa
feia
e
adormecida
o
velho
na
escuridão
suplica
para
aquele
Deus
antes
tão
vingativo
agora
todo
amoroso
o
velho
mira
a
cruz
ensanguentada
coça
os
testículos
e
reclama
da
incompetência
médica
o
velho
ruminando
impaciência
lança
um
olhar
furioso
em
direção
à
janela
observa
seus
vizinhos
jogando
conversa
fora
em
pleno
meio-dia
de
um
tedioso
 e
 nublado
feriado
o
velho
mais
furioso
fica
na
solidão
de
sua
agonia
coça
com
dedos
de
camponês
os
testículos
aquecidos
pela
doença
de
uma
maneira
feroz
até
sentir
pedaços
de
pele
dormirem
sob
as
unhas
acho
que
o
velho
está
morrendo
e
acho
que
aquele
Deus
também
está
morrendo
tamanha
é
sua
compaixão
pelas
criaturas
que
o
PERFEITO
corpo
apodrece
as
orelhas
bicadas
por
urubus
não
escutam
a
súplica
agonizante
do
velho
agoniado
e
a
Dona Morte
sorri
pois
em
breve
mais
uma
criatura
se
tornará
sócia
de
clube