sexta-feira, 7 de outubro de 2016

a jovem dama da lotação

bem-vinda
ao
meu
mundo
menina
de
16
que
vejo
no
ônibus
quase
toda
manhã
às
7
e
meia
quase
toda
manhã
há
vontade
de
cravar
meus
dentes
apodrecidos
no
seu
pescocinho
aveludado
e
saudável
menina
esse
poema
é
dedicado
a
você
é
possível
que
nunca
o
leia
é
possível
que
sua
indiferença
por
minha
desgraçada
pessoa
não
diminua
a
vontade
de
me
jogar
no
piso
sujo
do
transporte
coletivo
e
entregar
o
sangue
da
queda
em
suas
adoráveis
mãos
porque
menina
agora
estou
pronto
agora
fecho
as
pálpebras
agora
quero
ser
o
capacho
da
porta
da
sua
casa
pise
com
jeitinho
me
amassando
devagarinho
assim
irei
sussurrar
debaixo
dos
seus
pés
nus
minha
angustiada
e
alegre
poesia
agora
não
durmo
mas
finjo
que
sonho
a
vejo
descansando
na
cama
vestida
apenas
com
sua
calcinha
(qual seria a cor?)
vestida
apenas
com
o
vento
fresco
da
primavera
arrepiando
seus
pelos
castanhos
tornando
os
mamilos
dos
seus
seios
verdadeiras
pedras
pontiagudas
(seriam eles cor-de-rosa?)
porque
agora
estou
pronto
porque
agora
escrevo
com
a
direita
e
com
a
esquerda
remexo
as
bolas
há
um
perfume
de
putaria
adentrando
narinas
ah!
menina
se
lhe
pego
arranho
seu
corpo
até
emergir
fogo
de
sua
vagininha
e
talvez
não
lhe
agrade
esse
velho
idiota
de
41
inserindo
queimaduras
em
sua
pele
de
uma
cor
que
não
sei
definir
talvez
você
me
denuncie
à
polícia
serei
preso
por
pedofilia
não
faz
mal
porque
menina
estou
pronto
largo
tudo
por
você
apesar
de
nada
possuir
e
se
trancafiado
for
é
possível
que
não
diminua
vontade
de
me
masturbar
olhando
o
pôr do sol
através
da
janelinha
quadrada
imaginando
qual
seria
a
cor
de
sua
calcinha
(branca?)
  
 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

até quando?

o
cálice
da
vida
teima
em
não
se
quebrar
há
semanas
que
percebo
uma
rachadura
nele
e
quando
adormeço
penso
que
o
desmaiar
das
pálpebras
pode
ser
definitivo
mas
não
elas
se
abrem
feridas
pela
luminosidade
de
mais
um
dia
o
cálice
permanece
rachado
mas
não
escorre
o
líquido
dourado
da
vida
perturbada
que
levo
de
forma
safada
e
as
bolas
de
meu
pai
ardem
menos
e
meus
pés
continuam
congelados
e
sigo
escrevendo
enquanto
o
cálice
não
transforma-se
em
pequenos
pedaços
restos
elegantes
de
uma
existência
deselegante
e
sigo
por
ruelas
escuras
perguntando
onde
está
Bianca
sigo
perambulando
montanha
acima
montanha
abaixo
perguntando
se
alguém
conhece
uma
loira
religiosa
de
luxuriosos
olhos
verdes
não
obtenho
resposta
há
desprezo
evidente
na
face
dos
viventes
aqui
do
vale
quando
me
encaram
porém
escrevo
enquanto
o
cálice
sobrevive
 
toda captura será bem-vinda

elas
querem
me
pegar
estão
iluminando
meus
vestígios
nas
calçadas
estão
questionando
meus
vizinhos
estão
questionando
meu
pai
que
enfurecido
como
agressiva
fera
que
é
insultou
as
moças
essas
moças
são
assistentes
sociais
espiei
suas
deploráveis
pernas
pela
porta
entreaberta
do
meu
quarto
enquanto
meu
pai
na
cozinha
as
fulminava
com
dardos
venenosos
a
escapar
de
sua
idosa
língua
ele
disse
que
eu
era
extremamente
perigoso
a
ponto
de
acordar
(ele pensava que eu estava dormindo)
 e
destruir
tudo
que
havia
pela
frente
inclusive
seus
corpos
envelhecidos
por
receber
ordens
e
ordens
há
décadas
elas
apavoradas
se
retiraram
como
ratinhas
a
farejar
a
ratoeira
elas
querem
me
pegar
eu
também
quero
pegá-las
arrastei
minha
exaustão
até
o
escritório
de
meu
agradável
advogado
que
disse:
"deixe comigo
vou investigar
e
agarrá-las
pelo rabo"
saí
contente
arrastando
minha
disposição
sorri
para
as
crianças
da
avenida
acenei
para
os
estranhos
da
avenida
ninguém
retribui
minhas
gentilezas
olhei
para
o
asfalto
resfriado
pela
garoa
vespertina
de
outubro
percebi
no
solo
escuro
uma
voz
que
disse:
"elas não vão pegar você!!!"
 e
disse
mais:
"se pegarem
 deixe o vento
 lhe conduzir até o lar
das flores abandonadas
coloque uma na orelha
e
cante"


terça-feira, 4 de outubro de 2016

uma viagem até o fim da tarde

o
sol
se
despedia
com
sorriso
melancólico
eu
como
bom
camelo
vagava
mas
desta
vez
havia
um
objetivo
em
forma
de
garota
loira
de
olhos
verdes
pequena
em
sua
grandiosa
ternura
a
deslizar
de
seus
lábios
ela
me
disse
que
trabalhava
(desanimada)
no
armazém
de
seu
pai
perguntei
onde
se
localizava
e
ela
respondeu
mas
tão
fascinado
estava
que
pouco
ouvi
permaneci
vidrado
nos
movimentos
de
sua
boca
que
se
abria
e
fechava
de
uma
maneira
que
senti
as
pedras
da
calçada
emitindo
ruídos
a
invadir
minha
vida
arruinada
assim
nessa
tarde
cavalguei
ensandecido
quadras
e
quadras
buscando
repouso
naqueles
olhos
verdes
como
não
sabia
onde
estava
plantado
o
tal
armazém
vaguei
perguntando
e
perguntei
para
uma
dezena
de
pessoas
onde
diabos
estava
estacionado
esse
comércio
que
nem
sabia
o
nome
todos
perplexos
me
orientavam
acho
que
apenas
para
se
livrar
de
minha
presença
e
irritado
eu
dizia:
"nesse lugar está
a salvação de minha
existência miserável"
ninguém
se
comoveu
partiam
apressados
com
seus
corações
partidos
pelo
tédio
que
os
sufoca
segui
viagem
enquanto
o
sol
tombava
a
oeste
eu
não
tombava
mas
tropeçava
cambaleava
suava
e
fui
até
o
fim
aos
limites
da
cidade
até
o
fim
da
tarde
enquanto
o
sol
morria
eu
desmoronava
num
gramado
na
sombra
deliciosa
de
uma
árvore
encurvada
ali
deitado
vi
o
azul
transformar-se
em
negritude
vi
a
solidão
apossar-se
novamente
de
meu
corpo
gritei
o
nome
da
loira
católica
e
escutei
o
silêncio
mais
amargo
acendi
um
cigarro
e
dormi
riders on the storm

andarilhos
na
tempestade
vento
golpeia
as
pupilas
pés
se
misturam
ao
lodo
nesse
mundo
em
que
vivemos
todos
estão
mergulhados
nesse
esgoto
nesse
mundo
em
que
vivemos
todos
carregam
sonhos
rasgando
as
costas
esses
sonhos
não
se
realizam
nunca
pois
caso
se
realizem
surgem
outros
e
os
sábios
de
plantão
lhe
avisam:
"nunca desista de seus sonhos"
"o amor sempre vence"
eles
precisam
lhe
dizer
algo
e
dizem
nesse
mundo
em
que
vivemos
todos
aceitam
essa
sabedoria
grávida
de
esperança
e
eles
dizem
mais:
"sem esperança o que resta?"
resta
desespero
de
estar
caminhando
na
tempestade
sem
final feliz
à
vista
nesse
mundo
em
que
vivemos
todos
devem
ser
idealistas
e
otimistas
negar
o
furacão
a
machucar
a
visão
a
merda
mole
em
que
se
afunda
e
são
feitos
planos
medidas
de
prevenção
medidas
de
controle
para
fornecer
conforto
segurança
para
não
escorregar
no
piso
liso
onde
se
dança
nesse
mundo
em
que
vivemos
tudo
é
adoração
tentativa
de
inserir
sentido
na
vida
tudo
é
crença
uns
adoram
divindades
outros
adoram
putaria
ou
vadiagem
ou
seringa
na
veia
são
maneiras
de
se
lidar
com
o
embaraço
de
aqui
estar
e
não
saber
por que
nenhuma
é
melhor
que
a
outra
tanto
faz
como
tanto
fez
tudo
se
resume
em
acreditar
que
o
sol
fustiga
mas
a
lua
adoça
a
miséria
amedronta
mas
a
fortuna
alegra
nesse
mundo
em
que
vivemos
tudo
é
crença
mas
os
crentes
se
esquecem
que
a
crença
não
é
expressão
da
verdade
é
apenas
interpretação
do
que
sentimos
com
nossos
sentidos
tão
jovens
e
tão
envelhecidos
nossa
crença
sempre
é
equívoco
o
que
interessa
não
é
acertar
o
alvo
pois
nunca
acertaremos
já
que
desde
o
início
nunca
soubemos
e
até
o
fim
nunca
saberemos
coisa
alguma
o
que
interessa
é
que
o
voo
da
flecha
nos
fascine
nos
motive
a
erguer-se
do
chão
duro
em
que
deitamos
nossa
exaustão
nesse
mundo
em
que
vivemos
a
crença
transformou-se
num
sonho
a
crença
namora
o
futuro
tenta
abraça-lo
ele
sempre
escapa
como
os
amantes
escapam
e
seus
amores
e
logo
buscam
outros
amores
na
   ESPERANÇA
da
realização
da
tão
sonhada
estabilidade
recusam
a
queda
a
dor
o
desassossego
pois
não
é
aqui
nesse
mundo
que
todos
se
cumprimentam
dizendo:
  "beleza!!!"
    "de boa!!!"  
  "tranquilo!!!"
esse
mundo
em
que
vivemos
nem
sempre
foi
assim
a
"condição humana"
o
"universal"
é
conversa
de
filósofo
e
todo
bom
filósofo
no
fundo
sabe
que
toda
a
filosofia
e
todo
qualquer
saber
é
INÚTIL
e
o
leque
vai
espantar
o
calor
nesse
verão
novamente
vã
tentativa
o
suor
não
cessa
e
as
meninas
vão
pintar
as
unhas
e
o
cabelo
e
os
rapazes
vão
fazer
musculação
vã
tentativa
tudo
apodrece
mas
há
possibilidade
de
desligar
os
sonhos
da
tomada
e
dançar
eternamente
sob
o
fogo
do
instante
que
inevitavelmente
se
apaga
deixando
um
gosto
doce
na
boca
e
um
sorriso
idiota
na
face
afinal
nessa
tempestade
em
que
vivemos
somente
os
idiotas
são
felizes


                           

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

modernidade

inovar
é
algo
antigo
movimento
a
se
derreter
sob
o
primeiro
raio
de
sol
da
primavera
inovar
nada
mais
é
que
a
nova
tradição
obrigação
de
apresentar
algo
novo
é
invenção
com
longa
barba
branca
e
escasso
cabelo
branco
o
engraçado
é
que
o
novo
preciso
do
velho
senão
para
quem
será
direcionado
o
insulto?
assim
a
novidade
é
sempre
provisória
logo
surge
o
vento
da
insatisfação
esse
vento
derruba
o
movimento
antes
moderno
afirma
o
dever
de
se
vestir
outro
terno
em
pouco
tempo
esta
roupa
nos
sufoca
explode
grito
de
revolta
tudo
recomeça
até
quando?
mais uma noite

em
um
lado
da
cidade
cães
brigam
entre
eles
e
com
as
formigas
por
ossos
sem
uma
gota
de
carne
em
outro
lado
o
novo
prefeito
discursa
eufórico
para
multidão
mais
eufórica
ainda
com
suas
bandeiras
coloridas
gritos
histéricos
e
as
prostitutas
foram
embora
e
há
calafrio
nos
dentes
dos
indigentes
mergulhados
na
cachaça
barata
em
outro
lado
da
cidade
há
ruas
cercadas
por
casebres
de
papelão
no
outro
lado
há
imensas
residências
cercadas
por
muros
de
4
metros
de
altura
há
vozes
em
seu
interior
mas
é
apenas
o
som
da
TV
e
moças
apetitosas
sedutoras
em
seus
olhares
infantis
entregam
gratuitamente
folhetos
até
livros
borrifados
pela
palavra
de
Deus
e
uma
delas
além
disso
entrega
chocolates
recheados
ela
possui
olhos
verdes
é
muito
simpática
participa
de
um
grupo
de
oração
na
catedral
e
aquele
garoto
da
loja
de
discos
emite
faíscas
através
de
sua
pele
pálida
que
atravessam
sua
vestimenta
comportada
ele
que
é
guitarrista
de
rock
também
é
cristão
canta
Simpathy for the Devil
com
seu
inglês
perfeito
mas
não
sabe
o
teor
da
letra
da
canção
ou
seja
canta
hinos
em
louvor
ao
diabo
e
entoa
cânticos
em
louvor
a
Cristo
e
não
sabe
também
que
as
prostitutas
foram
embora
nunca
experimentou
o
sabor
de
suas
bucetas
largas
nem
observou
a
nobreza
dos
cães
da
rua
muito
menos
compartilhou
uma
garrafa
de
cachaça
barata
com
os
indigentes
largados
ao
vento
ele
mora
numa
daquelas
residências
imensas
e
votou
no
candidato
vencedor
ele
será
um
vencedor
cursa
publicidade
em
faculdade
particular
terá
muito
dinheiro
casará
com
uma
virgem
terá
filhos
plano
de
saúde
seguro
de
vida
casa
própria
carro
do
ano
e
continuará
tocando
sua
guitarra
o
que
ele
vai
dizer
através
 dela
será
o
retrato
da
SEGURANÇA
de
sua
vida
um
dizer
cheio
de
TÉCNICA
a
escapar
dos
seus
dedos
murchos
enquanto
a
TV
permanece
ligada
e
a
festa
democrática
continuará
os
indigentes
continuarão
cada
vez
com
mais
frio
nos
lábios
e
mais
cachaça
no
estômago
e
o
dilema
se
apresenta
enquanto
o
relógio
cavalga
rumo
à
alvorada
o
rifle
descansa
encostado
na
parede
as
pernas
cruzadas
suadas
marcadas
pelo
delírio
da
febre
descansam
sobre
o
colchão
assassinar
o
garoto
da
loja
de
discos
ou
assassinar
o
novo
prefeito
pode
ser
uma
opção
a
outra
é
movimentar
o
corpo
procurar
no
labirinto
escuro
os
vestígios
das
prostitutas
ir
até
à
margem
gelada
do
rio
procurar
os
indigentes
beijar
fervoroso
suas
faces
ou
optar
por
vasculhar
entre
os
escombros
dessa
noite
angustiada
os
olhos
verdes
e
simpáticos
daquela
evangelizadora
a
distribuir
doces
nas
esquinas
  malignas 
o
dilema
estrangula
ou
é
sangue
na
camiseta
branca
ou
cansaço
nos
pés
quem
sabe
assassinar
os
dois
ou
quem
sabe
abraçar
e
ser
abraçado
por
uma
prostituta
quem
sabe
gargalhar
ao
ver
o
dia
nascer
ao
lado
dos
indigentes
ou
ainda
quem
sabe
pedir
em
casamento
aquela
moça
de
olhos
verdes
conduzi-la
ao
altar
e
dizer
sim
ao
padre
é
uma
confusão
infernal
que
não
arrefece
tece
sua
mortalha
sem
piedade
a
respiração
tropeça
tudo
torna-se
nebuloso
mas
ninguém
se
importa
os
fogos
de
artifício
explodem
nessa
noite
angustiada
e
o
novo
prefeito
e
aquele
garoto
devem
estar
dormindo
em
PAZ